Teatro, política e feminismo: a possibilidade de construir uma nova história.
Quatro anos de pesquisa e trabalho em torno do tema “patriarcado e capitalismo”, mais de 60 apresentações do experimento cênico Carne (em sua maioria em locais não teatrais como sindicatos, salas de aula, casas de detenção, centros de cidadania da mulher etc.), intervenções urbanas junto aos movimentos feministas, mostras de filmes latinoamericanos, debates com convidadas de diferentes áreas e formações, participações em seminários que discutiam performance e gênero, encontros multiartísticos envolvendo movimentos sociais e artistas de diversas linguagens, manifestações de rua em prol das lutas de emancipação das mulheres e a participação em um evento de grandes proporções que aconteceu no mês de março de 2010, no Estado de São Paulo – no qual duas mil mulheres marcharam quase 100km, durante 11 dias sob a coordenação geral da Marcha Mundial das Mulheres (MMM): estas foram algumas das ações nas quais a Kiwi Companhia de Teatro empenhou seu tempo e energia nos últimos anos.
Estas ações, ao romperem o cotidiano, condensarem conteúdo político, reflexão social, construção teórica, exercício estético e formal, luta anti-sistêmica e agitação feminista foram nossas apostas no sentido de acender o fogo da indignação que alimenta a recusa da resignação e da injustiça, um apelo estratégico a grande aventura humana e amorosa da revolução.
As mulheres que caminharam os 100km de Campinas à São Paulo provavelmente, em algum momento, se perguntaram: mas, por que marchar? Diante de tantas dificuldades concretas que surgiriam durante o caminho, por que levar adiante uma ação de tal dimensão? Certamente muitas são as respostas para estas questões mas uma delas parece estar ligada ao que podemos nomear de “necessidade do chamado”. O chamado para sermos atuantes e conscientes no curso da história, da nossa história e também o entendimento de que a luta por melhores condições de vida para todas/os só se faz coletivamente. Além da importância de escolher uma forma simbólica – a caminhada – para dar força e chamar a atenção sobre as opressões de gênero e classe.
Da mesma forma, nós, da Kiwi Companhia de Teatro, poderíamos nos fazer pergunta semelhante: por que fazer teatro? E mais: por que tratar de um tema como desigualdade de gênero e classe no teatro?
Nos jovens países da América Latina, como o Brasil – eternamente em desenvolvimento, mas ainda carregando as marcas da colônia – onde o principal veículo de comunicação e transmissão de “cultura e pensamento” é a televisão comercial (segundo dados da Articulação Mulher e Mídia, menos de 10% da população lê jornal e são baixíssimos os índices de freqüentação de teatro, cinema e outras atividades culturais), a formação estética, intelectual e política de grande parte da população está submetida ao controle de alguns poucos grupos econômicos que detém o poder das concessões públicas dos veículos de comunicação. Diante deste quadro, a disputa simbólica, do imaginário e dos meios de expressão é urgente! E a discussão política sobre as questões que envolvem opressão de gênero, violência contra a mulher e temas afins nunca possuiu tanta relação com o universo da produção artística quanto neste início de século XXI.
A maneira como a sociedade se apropria do corpo e do espaço social da mulher, com o objetivo de engessá-la dentro de uma ideologia patriarcal, é hoje objeto de estudo de artistas e coletivos como Maria Galindo & Mujeres Creando (Bolívia), Mujeres Publicas (Argentina), The Magdalena Project (Rede Internacional de Mulheres), Jesusa Rodrigues e Liliana Felipe (México), As Loucas de Pedra Lilás (grupo de artistas feministas de Recife), as Obscenas (Belo Horizonte), Atuadoras (São Paulo), entre tantas outras, anônimas ou conhecidas, através das Américas.
Para o dramaturgo e diretor de teatro Edward Bond, “a arte deve responder ao perigo de uma época.” Portanto, se não estamos satisfeitas/os com as desigualdades de classe, etnia e gênero e se queremos que as ideias voltem a ser perigosas, acreditamos que, em meio a tanta apatia, o teatro – como espaço horizontal, de reflexão mútua, de reunião e assembleia, espaço provocativo e propositivo – pode ser uma ferramenta potente nesta luta de Davi contra Golias.
Se as dificuldades de produção já são enormes – não esqueçamos que menos de 0,06% do orçamento do país é destinado ao Ministério da Cultura, enquanto 45% são gastos com o serviço da dívida, e, destes 0,06%, a maior parte é aplicada nas políticas de cultura baseadas em renúncia fiscal, que privilegiam o mercado – elas se multiplicam quando coletivos artísticos resolvem tematizar as questões de gênero – como se este assunto não tivesse a menor importância ou as mulheres já tivessem conquistado sua autonomia (como resposta a isso basta citar os indicadores de diferenças salariais entre homens e mulheres e os índices de violência sexista).
Como diz nosso querido companheiro Fernando Kinas, “acreditamos que o teatro pode responder – com alegria, rebeldia e inteligência – aos desafios desta nossa época, mostrando que há alternativas onde alguns vêem somente o inevitável.”
Mas, que teatro é esse? Justamente aquele que se lambuza de vida, está em constante diálogo com a realidade, se arrisca na busca de novas formas que desafiem o pensamento das pessoas que dele fazem parte (atuantes na cena e no público), atendem às necessidades dos chamados com ousadia e coragem de colocar em prática o exercício dialético (sem perder o rumo e posição política clara). Uma das principais características deste teatro é o funcionamento em rede, em parceria com os movimentos sociais.
“Mulheres querem um mundo mais justo pros filhos crescerem sem susto. Mulheres querem um mundo de paz, sem elite e sem capataz. Amigas, vamos marchar. Chega de fome, pobreza e violência, Amigas, vamos marchar. Cantando pro mundo a nossa irreverência. É terra para gozar, maternidade e aborto seguros. É vida, prá navegar. E saber eleger quem respeite a quem aqui está! Vamos!”.
Instigadas/os por esta canção das mulheres da Marcha Mundial lançamo-nos ao desafio: movimentos feministas e coletivos artísticos podem sim, juntos, contribuir na construção desta outra história, de uma história das mulheres.
Fernanda Azevedo
atriz integrante da Kiwi Companhia de Teatro e militante feminista da Marcha Mundial das Mulheres
(texto publicado no blog Viva Mulher em junho de 2011)
SERVIÇO
Temporada Carne (entre os dias 01/07 e 28/08 de 2011)
Estreia 01 de julho de 2011 (sexta-feira)
Sexta e sábado, às 21h, domingo às 20h
Local: Teatro Coletivo
Rua da Consolação, 1623. Centro, São Paulo SP
Lugares: 60 lugares
Ingressos: R$ 12,00 e R$ 6,00 (estudantes, idoso(a)s, categoria teatral). Entrada gratuita para organizações e movimentos sociais (agendar com antecedência).
Reservas e informações:
Tel. (11) 7618-1690 / 7177-3810 kiwiciadeteatro@gmail.com






