Por ter sido vizinha da Iná durante dois anos numa travessa da avenida Pompeia, já sabia que não adiantava chegar em sua casa antes das 15hs. Além dos horários da minha querida entrevistada, em frente à sua porta rola uma ótima feira livre às quartas feiras.

Iná Camargo Costa é professora universitária aposentada do departamento de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São  Paulo; manja tudo de Teatro Épico, é grande colaboradora de vários grupos de teatro da cidade e é autora dos livros Panorama do Rio Vermelho, Ed. Nankim; Sinta o drama, Ed. Vozes; A Hora do Teatro Épico no Brasil, Ed. Graal.

Então, naquela tarde chuvosa do dia 14 de julho, fui recebida na sala aconchegante de sua casa para mais uma conversa deliciosa.

Começamos falando sobre o entendimento que a sociedade tem do profissional da arte, a dificuldade de reconhecimento da nossa profissão num país onde se trabalha no que for possível e que garanta o mínimo para sobreviver.

Contei a ela que quando um grupo de teatro abre bate papo com o público depois de uma apresentação de seu espetáculo, é comum que o elenco escute a pergunta “mas vocês trabalham com o quê?” ou “mas vocês vivem do quê?”.

A pergunta acaba por revelar que viver de arte no Brasil é um luxo, como conta Iná indo desde a Commedia dell’Arte até a sobrevivência dos nossos grupos, passando pela função da Cooperativa Paulista de Teatro e pela importância do movimento Arte Contra a Barbárie:

E a mulher profissional da arte? Diante desse quadro, como ficam as mulheres que, além de terem escolhido a arte, o teatro, como meio de vida, são profissionais autônomas, portanto não usufruem nem dos mínimos direitos conquistados pelas trabalhadoras que têm carteira de trabalho assinada?

Iná fala da relação liberdade do homem X escravidão da mulher como condição de constituição do capitalismo, o embrutecimento que o trabalho doméstico exclusivo provoca, sugere novas possibilidades de organização da família e, consequentemente, da sociedade – claro, a partir da ação coletiva de cidadãs e cidadãos, desnaturalizando (!!!) o papel que foi grudado à identidade da mulher ao longo da história da humanidade.

É de dentro dos movimentos sociais que saem as propostas de transformação da sociedade, as propostas de lei, as reivindicações por condições mais justas e igualitárias de direitos etc. Assim, o movimento feminista – ainda extremamente ativo, pra quem não sabe… – luta intensamente pelos direitos das mulheres.

Aí levantamos duas questões: primeiro a diversidade de segmentos dentro do movimento feminista (as trabalhadoras do campo, as operárias, as mulheres negras, as lésbicas, as intelectuais e por aí vai) e a ojeriza que as pessoas no geral tem em relação ao termo “feminista”. Ao perguntar para uma mulher se ela é feminista, a resposta mais comum é “Eu não! De jeito nenhum!!! Eu acho que homens e mulheres devem ter os mesmos direitos, acho errado homem bater em mulher, acho errado homem ganhar mais do que mulher, mas feminista, isso não!” – ou seja, essa mulher É feminista!

Estamos nesse momento acompanhando na mídia dois casos de femicídio – o assassinato da advogada Mercia e o de Eliza Samudio. Dado da Organização das Nações Unidas aponta que a cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil. Outro dado revela que o assassinato é a terceira causa mortis da mulher brasileira, sendo que na grande maioria dos casos, o assassinato é cometido por um homem próximo à mulher (marido, ex marido, ex namorado, amante, pai, etc).

O movimento feminista lançou a bandeira (publicada no post anterior desse blog) MACHISMO MATA. Sobre esse tema, veja o que diz Iná:

E, por fim, Iná fala sobre a violência do estado, partindo da liberdade de se armar do cidadão americano e chegando à definição contraditória de direito à propriedade:

A condição da mulher é a medida do progresso humano.

(Marx, por Iná)